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Infância nos anos 70 e 80: cavalos, telhados, Corinthians, um gol anulado e um parque vazio tocando Crimson and Clover.

Às vezes fico imaginando como sobrevivi aos anos 70 e 80. Não falo isso como frase bonita. Falo como quem olha para trás e percebe que a infância, naquele tempo, era uma espécie de território sem cerca. A gente saía de casa, entrava em terreno vazio, subia em telhado, inventava paraquedas, puxava rabo de cavalo, atravessava rua, sumia por horas, voltava sujo, machucado, com fome, e ninguém chamava aquilo de trauma. Chamavam de criança. Hoje, algumas coisas que eu fiz naquela época seriam motivo para colocar meus pais numa prisão solitária e me encaminhar para um tratamento psicológico intensivo. O problema é que meus pais nem sabiam. Eles não faziam ideia da mente problemática que o segundo filho da família carregava dentro daquele corpo pequeno, magro, inquieto, curioso demais para sobreviver com segurança. Minha primeira lembrança não é uma festa. Não é um aniversário. Não é brinquedo. É uma ferradura. Eu devia ter quatro anos. Sei disso porque fui pesquisar depois. Aos cinco, eu já morava em outra casa. Então aquela memória pertence a esse tempo estranho, quase impossível, em que uma criança ainda mal entende o mundo, mas já encontra maneiras de quase sair dele. Na frente da minha casa havia um terreno. E nesse terreno havia dois cavalos pastando. Não sei o que passou pela minha cabeça. Talvez nada. Criança de quatro anos não pensa em consequência. Pensa em movimento. Em textura. Em curiosidade. Em testar se o mundo responde quando a gente encosta nele. Eu fui até um dos cavalos. E puxei o rabo. O cavalo respondeu. Não com raiva. Com cavalo. Deu um coice. Até hoje eu vejo a ferradura. Nítida. Grande. Rápida. Passando diante do meu rosto como uma sentença que errou o endereço por poucos centímetros. Fico pensando: e se eu estivesse trinta centímetros mais para frente? Trinta centímetros. É uma distância pequena demais para separar uma travessura de uma tragédia. Pequena demais para separar uma memória engraçada de uma história que ninguém contaria com sorriso. Meus pais nunca souberam. Ninguém soube. Foi uma daquelas memórias que ficam guardadas sem testemunha, esperando a vida inteira para aparecer sempre que vejo um cavalo pastando. Não vejo apenas o cavalo. Vejo a ferradura. Vejo o menino. Vejo o quase. Na mesma casa havia um pé de ameixa. Os galhos ficavam acima do telhado. Isso, para uma criança como eu, não era uma árvore. Era uma escada. Era um convite. Era uma irresponsabilidade com frutas maduras. Tenho duas memórias desse pé de ameixa. Na primeira, estou deitado no telhado da casa comendo ameixas maduras sem nenhum esforço. O mundo inteiro parecia ter sido desenhado para me servir fruta na altura da boca. O telhado era quente. As ameixas eram doces. Eu devia estar sujo, feliz e completamente fora de onde deveria estar. Na segunda memória, estou com um guarda-chuva aberto. No telhado. Pronto para voar. Eu tinha visto, ou imaginado, ou decidido sozinho, que um guarda-chuva aberto faria o mesmo efeito de um paraquedas. Criança não conhece física. Conhece desenho animado, coragem falsa e joelho pronto para ser esfolado. Eu pulei. O guarda-chuva não negociou com a gravidade. A queda foi rápida. O glamour, nenhum. O joelho abriu. E o meu maior problema não foi a dor. Foi esconder o machucado da minha mãe. Porque naquele tempo a queda era só metade do acidente. A outra metade era explicar como você tinha chegado até o telhado com um guarda-chuva aberto e uma ideia criminosa na cabeça. Não me lembro de como subi. Mas lembro das ameixas. Lembro do telhado. Lembro do tombo. Lembro do joelho. A mente é uma coisa estranha. Ela não guarda tudo. Ela escolhe. E, no meu caso, parece que escolheu guardar principalmente as provas contra mim. Não lembro muito das coisas boas que eu fazia — se é que fazia. Lembro claramente das coisas erradas. Das quase tragédias. Das pequenas loucuras. Dos planos que não deveriam ter passado da primeira ideia. A partir dos seis anos, porém, a memória abre as portas. A primeira bicicleta. Os primeiros amigos na casa nova. O primeiro dia de aula. Esse primeiro ano de escola merece um artigo sozinho. Eu comecei o primeiro ano já sabendo ler. Isso, dito assim, parece bonito. Quase dava para imaginar o prefeito da cidade indo até a escola me congratular. Mas a verdade tinha menos medalha e mais cinta de couro. Na parede de casa havia uma cinta. E aquela cinta tinha uma missão pedagógica muito clara caso eu não soltasse o alfabeto inteiro. Aprendi a ler cedo. Não sei se por talento. Ou por sobrevivência. Mas isso fica para outro artigo. Porque os anos 70 não foram apenas quintais, telhados e cavalos. Foram também futebol. E futebol, para um menino brasileiro, não era entretenimento. Era formação espiritual. Em 1976, eu torci e chorei pelo Corinthians. Depois da invasão no Rio de Janeiro, veio a derrota para o Internacional. Confesso que aquela derrota não me destruiu. Talvez porque eu ainda não entendesse o tamanho da fila. Talvez porque criança sofre diferente. Sofre agora, mas ainda acredita no pai quando ele parece acreditar por todos. Eu confiava no meu pai. E valeu a pena esperar. Em 1977, com dez anos, eu vi a fila acabar. Corinthians campeão em cima da Ponte Preta. Só anos depois fui entender a alegria do meu pai. Naquele momento, eu não tinha noção completa do que significavam tantos anos sem título. Eu via o jogo, via a festa, via meu pai, e alguma coisa dentro de mim entendia sem saber explicar. Acho que foi ali que eu entendi o que era ser corinthiano. Não era ganhar. Era esperar. Era sofrer com testemunhas. Era acreditar quando a lógica já tinha ido embora. Era olhar para o rosto do meu pai e perceber que um título podia devolver a um homem alguma coisa que o tempo tinha ficado devendo. Mas em 1978 veio outra lição. A primeira grande frustração da minha vida. Brasil e Suécia. Copa do Mundo. O escanteio. Nelinho bate. Zico sobe. Cabeceia. Gol. E então o juiz diz que não. O jogo tinha acabado. Até hoje, com meus cinquenta e oito e poucos anos, eu não consigo entender. Se a partida tinha acabado, por que deixar bater o escanteio? Essa pergunta ainda mora em mim com a indignação limpa de uma criança de onze anos. Do escanteio até a bola entrar não deu quatro segundos. Quatro segundos. Pouca coisa para um relógio. Tempo demais para uma injustiça. Eu assisti àquele jogo sozinho. Minha família tinha ido ver a partida na casa de amigos do meu pai. Não lembro por quê, mas lembro que fiquei em casa. Uma criança de onze anos diante da televisão, aprendendo que nem todo gol que entra vale. Aquilo foi um cartão de visita. A realidade entrou sem pedir licença. Crua. Nua. Sem explicar as regras. Quando a partida terminou, saí de casa para ir até onde minha família estava. O bairro tinha um daqueles parques que apareciam como circos, ficavam alguns dias, enchiam a rua de luz, música e poeira, depois desapareciam como se nunca tivessem prometido alegria. Naquele dia, o parque estava aberto. Mas vazio. Isso ficou comigo. Um parque vazio depois de um gol anulado. As luzes talvez acesas. Os brinquedos parados. O chão gasto. E nos alto-falantes furados tocava uma música antiga, estrangeira, bonita de um jeito triste: “Crimson and Clover”, de Tommy James and the Shondells. Eu não sabia inglês. Não precisava. Algumas músicas chegam antes da tradução. Era 1978. Eu tinha onze anos. Um gol tinha sido tirado de mim. O parque estava vazio. E aquela música tocava como se alguém tivesse escolhido a trilha sonora exata para uma criança começar a desconfiar do mundo. Três anos depois, meu pai morreria de enfarto fulminante. Quarenta e seis anos. Foi em 1981. Aí o mundo não anulou um gol. Anulou uma presença. E não teve juiz para reclamar. Não teve escanteio para bater de novo. Não teve pergunta que resolvesse. Só a ausência. Em 1982, eu iria chorar de novo. Igual chorei pela morte do meu pai. Mas isso é outra história. Algumas memórias a gente conta. Outras ficam esperando a idade certa para doer direito.

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