Eddie, Não Sebastião | EddieSilva.com

Na certidão, Edson. Na vida, Eddie. Um nome, um pai, Pelé, Sebastião e a história quase outra que eu não vivi.

Oi, meu nome é Eddie Silva.

Nasci em 1967.

Na certidão, Edson. Na vida, Eddie.

Provavelmente, meu nome veio por causa do Pelé.

Digo provavelmente porque certas coisas, quando a gente nasce, já chegam decididas antes da nossa memória ter qualquer chance de participar. Nome é uma delas.

Você aparece no mundo chorando, sem saber onde está, sem saber quem são aquelas pessoas ao seu redor, e alguém já decidiu como você será chamado pelo resto da vida.

Edson.

Com “E”.

Como Edson Arantes do Nascimento.

Pelé.

Mas em algum ponto da vida, Edson virou Eddie.

Talvez porque certos nomes crescem junto com a gente.

Talvez porque a gente também tenha o direito de ajustar o som da própria história.

Nunca sentei com meu pai para perguntar isso. Nunca perguntei se ele realmente pensou no Pelé quando escolheu meu nome. Nunca perguntei se ele imaginava alguma coisa para mim quando ouviu aquele nome pela primeira vez.

Talvez ele só gostasse do som.

Talvez o Brasil inteiro, naquele tempo, gostasse do som.

Talvez, em 1967, chamar um filho de Edson fosse uma maneira simples de colocar um pouco de futebol, esperança e orgulho nacional dentro de casa.

Minha mãe comentou uma vez que meu pai, Patrício, queria que eu tivesse o mesmo nome do meu avô paterno.

Sebastião.

Mais uma vez, a voz da minha mãe prevaleceu.

E eu sou grato a ela.

Não por desrespeito ao meu avô. Que fique claro. Sebastião é um nome forte. Nome de homem antigo. Nome de gente que provavelmente levantava cedo, falava pouco, trabalhava muito e não ficava explicando sentimento em artigo nenhum.

Mas sejamos honestos.

Hoje, talvez ninguém estivesse lendo uma coluna assinada por Sebastião Silva Jr.

Tem nome que já nasce com paletó.

Tem nome que já nasce com obrigação.

Sebastião Silva Jr. parece nome de homem que deveria saber consertar telhado, discutir escritura de terreno e nunca chorar vendo futebol.

Eddie Silva, pelo menos, me deu uma chance.

Não sei se aproveitei.

Mas me deu.

O que aprendi com meu pai foi pouco.

Não porque ele não tivesse o que ensinar.

Pais sempre têm.

Mesmo quando não sabem.

Mesmo quando não falam.

Mesmo quando ensinam mais pelo jeito de sentar na cadeira do que por qualquer conselho.

O problema é que eu era criança.

E criança não tem noção do presente.

Muito menos do futuro.

A criança acha que o pai está ali porque sempre esteve. Acha que a voz dele faz parte da casa. Que o barulho dos passos, a camisa pendurada, o prato na mesa, o jeito de tossir, o jeito de olhar para o jogo, tudo aquilo pertence ao mundo de forma permanente.

A criança não sabe que algumas coisas estão apenas passando.

Ela não sabe que um dia vai tentar lembrar o som exato da voz do pai e talvez encontre só pedaços.

Uma frase.

Um gesto.

Uma bronca.

Um domingo.

Um jogo.

Uma camisa.

Um silêncio.

Talvez por isso, quando meu pai morreu, eu tenha entrado em negação.

Na época eu não sabia esse nome.

Negação.

Hoje a gente coloca nome em tudo. Naquele tempo, a gente apenas continuava vivendo. Ia para a escola. Comia. Brincava. Calava. O corpo seguia, mesmo quando alguma coisa dentro dele tinha parado no dia do enterro.

Eu não entendi a morte do meu pai quando ela aconteceu.

Não de verdade.

Uma criança entende o fato.

Mas não entende o tamanho.

Entende que alguém morreu.

Não entende que aquela ausência vai crescer junto com ela.

Meu pai morreu quando ainda havia perguntas demais para fazer.

E talvez essa seja uma das crueldades da perda cedo.

Você não perde apenas o pai que tinha.

Perde também o pai que poderia conhecer depois.

O pai que talvez conversasse com você quando você fosse homem.

O pai que talvez explicasse por que queria Sebastião.

O pai, Patrício, que talvez dissesse se meu nome veio mesmo do Pelé.

O pai que talvez assistisse Corinthians comigo e entendesse, sem precisar explicar, por que certas derrotas doem mais do que deveriam.

Fiquei com o nome.

Fiquei com algumas lembranças.

Fiquei com a ausência.

E, de alguma forma, fiquei também com essa pergunta pequena, quase boba, mas que atravessa os anos:

Por que Edson?

Talvez tenha sido o Pelé.

Talvez tenha sido minha mãe vencendo uma pequena batalha dentro de casa.

Talvez tenha sido apenas uma escolha comum em um ano qualquer.

Mas hoje eu penso que um nome também é uma espécie de herança.

Mesmo quando a gente não entende.

Mesmo quando não pediu.

Mesmo quando quase veio outro.

Eu não virei Pelé.

Também não virei Sebastião.

Virei Eddie Silva.

E talvez isso já tenha sido trabalho suficiente para uma vida inteira.

Read on EddieSilva.com